O Que Está Aqui É O Que Sobrou



A atual pesquisa do Coletivo Bruto, O Que Está Aqui É O Que Sobrou, dá continuidade a uma linha mais ampla de pesquisa, que se iniciou com o processo de montagem de nosso primeiro espetáculo, Guerra Cega Simplex Feche os Olhos e Voe ou Guerra Malvada (2008). Tratava-se então de pesquisar formas de tratamento estético da guerra, enquanto fenômeno limite que concentra e catalisa significações dispersas nas relações de conflito e dominação que estruturam as sociedades modernas e contemporâneas.  

 Guerra Cega Simplex, claramente inspirado na obra de Heiner Müller, nos levou naturalmente ao estudo da peça incompleta de Brecht O Declínio do Egoísta Johann Fatzer, postumamente organizada e editada por Müller; de Héracles 2 ou a Hidra, de Müller; e da história da Fordlândia, cidade construída por Henry Ford no coração da Amazônia em 1927.  Interessamo-nos, no Fatzer, em Héracles e na história da Fordlândia por alguns temas comuns: o estado de suspensão política, temporal e territorial; a convivência e o egoísmo; os mecanismos de controle e o Terror.
  
Após realizarmos a Habitação Bruta em 2010, partimos para a etapa final da pesquisa. Viabilizada pelo Programa de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo - 18° edição, o Coletivo Bruto desenvolve, entre junho de 2011 a março de 2012, o processo de construção de estrutura dramatúrgica inspirada nos textos e na historia mencionados acima.
Durante esse processo, realizaremos quatro encontros com o público para compartilharmos, de forma interativa, etapas do processo de criação (Experimentos de Aproximação com o Público) e um Experimento Poético Final (estrutura dramatúrgica) aberto ao público, que sintetizará os resultados obtidos durante o processo.

Coordenação artística geral
Paulo Barcellos e Wilson Julião
Atuadores
Ieltxu Martinez Ortueta

Luiz Henrique Lopes

Paulo Barcellos

Wilson Julião
Colaborador de dramaturgia
Alexandre Dal Farra
Colaboradora em View Points
Miriam Rinaldi
Colaboradores em linguagens corporais
Key Sawao e Ricardo Iazzetta
Produção executiva
Palipalan Arte e Cultura
Coordenação técnica
Paulo Barcellos
Registro e compartilhamento web
Mariana Sucupira
Administração
Wilson Julião
 


O QUE É A HABITAÇÃO BRUTA?

Habitação Bruta
Projeto Zona de Risco 2010 - Derivas/CCSP


O objetivo foi trabalhar interferindo nas dinâmicas próprias do Centro Cultural São Paulo e construir dramaturgia a partir da observação das reações desencadeadas. Assim, interferir criticamente no modo de produção de subjetividades da megalópole.


O Coletivo Bruto habitou o Centro Cultural São Paulo nos meses de setembro, outubro e novembro de 2010. Essa Habitação Bruta partiu da sala Ademar Guerra (esconderijo, aparelho, célula, sala de estar, residência) para os outros espaços do Centro Cultural (biblioteca, passagens, áreas de convivência, áreas técnicas, discoteca, área expositiva, etc.) a fim de criar um fluxo/diálogo poético. 



Durante este período, ocorreram ações de observação das dinâmicas do espaço, com seus freqüentadores, acervos e funcionários. Foram criados programas performativos de intervenção, que reagiram estas dinâmicas e criaram uma dramaturgia, refletindo a relação porão/CCSP – CCSP/cidade de São Paulo. O Centro Cultural São Paulo pode ser entendido como metáfora da cidade?
Partimos de um pressuposto dramatúrgico que se alia a nossa pesquisa atual: a suspensão como ação contestatória e uma discussão sobre o egoísmo. Assim, o “egoísta” sai, relacionando-se com o CCSP/cidade, em busca de material que providencie sua sobrevivência, e retorna para seu esconderijo/porão para uma nova suspensão crítica.
As ferramentas teóricas usadas para as ações de observação crítica e criação foram a idéia de deriva, a idéia de rede (quentes e frias) e os princípios da intervenção/instalação/performance.
As linguagens artísticas utilizadas nesta criação foram resultantes das necessidades formais do material, podendo aliar dança, vídeo, teatro e artes visuais.




Hipóteses

- O Centro Cultural São Paulo é uma metáfora da cidade;
- O egoísmo é necessário a sobrevivência;
- A suspensão pode ser uma ação crítica as situações de bloqueio dos fluxos espaço/temporais, do regime violento e invisível da velocidade tecnológica e do controle.

Trabalhamos com três categorias espaço-temporais:


            Boqueio:
Percebido na cidade como: Trânsito, aglomerações, enchentes, quedas de sinais, blackouts, catracas, portas eletrônicas, portarias.
Percebido na zona de deriva como: Desvios, catracas, portarias, funcionários, áreas técnicas restritas, modulação dos espaços expositivos, horários.


Controle virtual e campo de visão:
Percebido na cidade como:  Câmeras de segurança, facebook, twiter, sites de relacionamentos, guaritas, walktalks, arquitetura vertical, subterrâneos, luz artificial, todos os monitores, Google earth, Skype, GPS.
Percebido na zona de deriva como: Paredes de vidro, ritmos de cobertura (espaço aberto e fechado), janelas, vãos, modos de consulta do acervo, todos os monitores.


Dromocracia - dromocracia nomeia o regime invisível da velocidade tecnológica como epicentro descentrado de estruturação da vida humana (conceito usado por 
Paul Virilio): Percebido na cidade como: Ritmo de trabalho, deslocamentos, informação generalizada e descartável, demandas sistemáticas do outro, conexões on time, fluxo de capitais.
Percebido na zona de deriva como: Informações generalizadas, rede elétricas, espaços de parada, sono, espaço horizontal, rampas.


Quantitativo 
82 dias;
11 semanas e meia;
04 Observações ativas;
05 Observações passivas;
03 Programas coletivos;
05 apresentações de GUERRA CEGA SIMPLEX;
02 Ensaios Nômades ( dias 03 e 12 de novembro);
08 proponências artísticas individuais (mínimo), todas apreciadas pelo fórum crítico do Coletivo Bruto;
01 coquetel/programa de abertura (dia 18 de setembro, das 19h30 as 21h30);
04 proponências “EI!” ( Encontros de Improvisação);
02 amostragens finais dos materiais criados dentro da Habitação Bruta;
01 espetáculo/experimento.

Ficha técnica
Provocadores Cássio Santiago e Elisa Band | Atuadores Luiz Henrique Lopes, Maria Tendlau, Mariana Sucupira, Paulo Barcellos e Wilson Julião | Produção Executiva de Palipallan Arte e Cultura  | Coordenação de produção de Wilson Julião | Coordenação técnica de Paulo Barcellos | Parcerias de Le Commedien Tropicales, Key e Zetta Cia. e Weeinz.






FRAGILIDADE


Habitação Bruta
Projeto Zona de Risco 2010 - Derivas/CCSP

Alguém, vestido com camisola hospitalar, entra no CCSP pela entrada principal e percorre o Centro empurrando seu carrinho de soro, com o tubo supostamente espetado no braço, e uma mochila nas costas. Depois de percorrê-lo, dirige-se à biblioteca, acomoda-se, retira um notebook da mochila e trabalha durante cerca de 10 minutos. Depois, guarda o notebook, sai da biblioteca e dirige-se para a saída. Repete o procedimento durante toda a tarde, com intervalos de uma hora. Durante o procedimento, simplesmente não interage, comporta-se como se fosse invisível. O procedimento é observado e registrado por membros do Coletivo.



Por que: dar visibilidade clara ao sentimento de “auto-suficiência possível”, que se mostra claramente quando se está numa condição de fragilidade, precariedade e dependência característica de uma situação fisicamente patológica, mas que impregna nossa vida cotidiana mesmo em situação de “normalidade”. 

ÓPERA OU VAMOS VER COMO ANDA NOSSA VELHA CONHECIDA GUERRA

Habitação Bruta
Projeto Zona de Risco 2010 - Derivas/CCSP 

Usuários do centro cultural são convidados a assistir uma ópera ás 18h30 de alguns dias úteis.
  
Procedimento 1: Gravar o repertório mais ouvido da discoteca do Centro.  
Procedimento 2: iPods com fones para 4 participantes de cada vez.  
Procedimento 3: 4 binóculos  
Procedimento 4: Levar os usuários até a área externa do piso expositivo  e colocá-los em cadeiras defronte à Av 23 de Maio.  
Procedimento 5: todos ligam os iPods e pegam os binóculos e assistem  o congestionamento da 23 de maio ao som de músicas de La Nave Va.




Porque: Contrapor a matéria poética com o cotidiano caótico e ressignificar o ato de assistir. Assistir como ato de voyerismo, borrar os limites do que é público e do que é privado. Várias outras camadas.  

Material: Recurso de gravação do acervo, 4 ipods, 4 binóculos, 4 cadeiras, 4 fones de ouvido para os ipods.  
Pesquisa: Período de 1 semana 
Récitas: Sempre as 18h30 em uma segunda, uma quarta e uma sexta. Dias 18, 20 e 22 de outubro  

APENAS CANSADA DESTA MERDA – WW

Habitação Bruta
Projeto Zona de Risco 2010 - Derivas/CCSP

Egoísta é: Auto explicativo  Quem: Eu  O que:  Enunciado: Uma mulher vestida com uma fantasia de mulher maravilha (daquelas bem mequetrefe de loja de artigos para festa), coloca uma cadeirinha num lugar de passagem e se senta. Traz consigo um pequeno amplificador e um microfone. Ela se senta, baixa a cabeça, se prostra, uma mão apoiada no colo com a palma para cima, a outra segurando o microfone, um texto escrito em letras pequenas sobre o colo. Ela não olha para ninguém. Ela começa a ler o texto “Diferenças entre um egoísta e um egocêntrico” no microfone, mas bem baixinho e lento. Ela repete o texto três vezes. Se levanta e vai embora. 


Porque: Estranhar a relação entre os atos heróicos e os atos egoístas. Revelar a falência do comum. Estranhar o fetiche do super-herói. 

Material: Nossa cadeirinha 1 microfone 1 amplificador portátil 1 fantasia de mulher maravilha  Quando e onde: 5 vezes, em horários diferentes; na passagem onde ficava anteriormente a bilheteria, perto do vidro da sala Adoniran Barbosa; perto da gibiteca; no espaço entre armários do guarda volumes; no terraço atrás do espaço expositivo; na entrada com ligação para o metrô. 
Registro: Filmagem das pessoas observando, bem discreta e de longe.